quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

'Uma vida simples é mais feliz', diz arquiteto de apartamento de 19m²

"Como planejar sua vida para incluir mais dinheiro, saúde e felicidade com menos coisas, espaço e energia." É com essa frase que a empresa americana LifeEdited (ou "vida editada", em português) resume o seu trabalho. A empresa está por trás do desenvolvimento de um projeto para o menor apartamento à venda no Brasil, que tem 19m² de área.
A LifeEdited foi criada pelo arquiteto e designer canadense Graham Hill há pouco mais de um ano. Depois de criar duas empresas com foco na internet e vender cada uma por US$ 10 milhões, ele decidiu tocar um projeto relacionado ao seu estilo de vida. Hill é um ambientalista.
"Por um tempo, morei em várias cidades, sempre em locais pequenos e sempre levando minhas coisas em apenas duas malas. Isso me fez pensar sobre quanto de espaço e coisas eu realmente precisava. Percebi que uma vida simples é mais feliz", afirma.
O primeiro projeto da LifeEdited foi o apartamento para onde o próprio Hill se mudou há um ano, em Nova York. Ele desenhou, para o imóvel de 39m², diversas soluções para aproveitamento de espaço. Durante o dia, ele pode montar uma mesa e receber até 12 pessoas para almoçar. À noite, a mesa é escondida e dá lugar a uma cama de casal.
O canadense desenvolveu um projeto semelhante para a brasileira Vitacon. Ele veio a São Paulo nesta semana mostrar suas ideias para os apartamentos de 19m² do VN Quatá, empreendimento localizado na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, que foi desenvolvido pelo escritório Basiches Arquitetos e lançado em outubro. A arquitetura interna do imóvel imaginado por Hill para os brasileiros tem paredes que mudam de lugar e móveis adaptados.
Em entrevista ao UOL, o arquiteto explicou o que o levou a adotar um estilo de vida "editada" e por que acredita que essa será a tendência do futuro quando se fala em moradias. Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista.
UOL -  O principal produto de sua empresa é seu próprio apartamento, que o senhor usa para mostrar que é possível viver bem em espaços pequenos. Quando o senhor começou a pensar nisso como parte de um estilo de vida?
Graham Hill - Sempre morei em casas grandes. Minha casa em Seattle tinha 300m². Mas sou um ambientalista e penso muito sobre esse assunto. Quando comecei o TreeHugger [site criado por ele com informações sobre sustentabilidade], estava namorando uma espanhola e morei com ela em Barcelona em um local muito pequeno. Depois morei em Bancoc [Tailândia] por cinco meses, em Buenos Aires [Argentina] por três meses, sempre em locais pequenos. E sempre com apenas duas malas. Material de trabalho, roupas e tudo o que eu tinha ficavam em duas malas. E nós tínhamos uma vida muito boa.
Isso me fez pensar sobre quanto de espaço e de coisas eu precisava. Percebi que a vida tem mais a ver com experiências, flexibilidade e tempo. Quando o lugar em que você mora é menor, você usa menos o aquecedor, tem menos espaço para limpar, gasta menos. Num projeto como a da Vitacon, por exemplo, as pessoas podem gastar menos dinheiro e morar de um jeito legal, perto do centro, sem precisar se locomover pela cidade. Você economiza recursos do meio ambiente, tempo e dinheiro, porque não precisa gastar com carro e gasolina.
Acredito que uma vida simples é mais feliz. Posso ter coisas muito boas, que são mais caras, mas elas duram mais tempo e por isso não preciso ter grandes quantidades. Tenho menos coisas para limpar e menos coisas com as quais me preocupar. Minha vida é mais simples.
O preço dos apartamentos menores, comparando com os maiores, ainda é proporcionalmente maior. Além disso, para ter apartamentos menores, é preciso ter móveis adaptados. Isso não torna esse estilo de vida mais caro, no fim das contas?
Um apartamento tem basicamente três partes: banheiro, cozinha e um espaço aberto [que inclui sala e quartos]. O custo do espaço aberto é bem menor do que o do banheiro e da cozinha. Mesmo que você encolha o espaço aberto, ainda terá de ter banheiro e cozinha, por isso o custo por metro quadrado dos imóveis menores é mais alto. Sobre os móveis, ainda é muito cedo. O volume dos móveis adaptados para espaços menores não é grande, então os preços são um pouco altos ainda.
Mas a maneira certa de olhar para isso é pelo custo absoluto. Se você está vivendo num apartamento de dois quartos e não precisa dos dois quartos, está desperdiçando dinheiro.
Mas o senhor acha que as pessoas de fato pensam assim? Se eu tivesse dinheiro para comprar um espaço maior, por que não compraria?
Claro, muita gente não pensa assim. O conceito sempre foi "quanto maior, melhor". Nos Estados Unidos, as famílias estão menores e estão morando em casas três vezes maiores do que nos anos 1950. Mas os níveis de felicidade são os mesmos. Então acho que basicamente confundimos felicidade com ter coisas.
Viver em locais menores será uma das saídas para as grandes cidades, e estamos aprendendo a fazer móveis e layouts melhores para esses espaços. Um das razões é a preservação do meio ambiente. Todas as cidades têm objetivos nesse sentido.
Além disso, se você escolhe, por exemplo, viver no VN Quatá, você tem menos espaço, mas não se locomove, então sua qualidade de vida é totalmente diferente. Às vezes temos uma sala de jantar e convidamos pessoas para jantar só uma vez por ano. Temos um quarto extra, e esse quarto é usado no máximo 20% do tempo. Gastamos dinheiro com esses espaços que estão vazios na maior parte do tempo.
Além do seu próprio apartamento e do VN Quatá, aqui no Brasil, quais são os outros projetos da LifeEdited?
Somos uma empresa nova, mas temos alguns projetos em desenvolvimento. Um deles é no Brooklin, em Nova York. Estou fazendo também outro protótipo no meu prédio, mais para experimentação. E estamos trabalhando com Tony Hsieh [empresário americano que é dono da loja virtual Zappos], que está interessado em testar um projeto de pequenas moradias em Las Vegas. Lá, estamos fazendo quatro unidades cerca de 18m² a 27m² e vamos oferecer estadas por uma noite e uma semana, para ver se as pessoas de Las Vegas gostam da ideia.
O senhor já teve e vendeu duas outras empresas por US$ 10 milhões cada uma. Vivendo de uma forma tão simples, o que faz com seu dinheiro?
Para mim o que importa é trabalhar com projetos que podem mudar o mundo. Ter dinheiro permite que eu faça isso, não preciso achar investidores, não tenho de me preocupar. O dinheiro me dá liberdade. Poderia gastar muito dinheiro em várias coisas, ter carros da moda, e casas da moda, mas não teria liberdade. (Uol, 07.11.2013)
www.abraao.com

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Atraso para lidar com clima pode sair caro: Conclusão é de um rascunho do relatório do painel de mudanças climáticas da ONU

DO "NEW YORK TIMES"
Os países demoraram tanto para combater as mudanças climáticas que a situação chegou num ponto crítico, e o risco de gastar quantias enormes para resolver o problema está aumentando, segundo a versão preliminar de um novo relatório do IPCC (painel de mudanças climáticas da ONU) que vazou na semana passada.
De acordo com os especialistas, outros 15 anos de fracasso em limitar as emissões de carbono podem tornar impossível resolver o problema com as tecnologias atuais.
Esse atraso provavelmente forçará as gerações futuras a desenvolver meios de retirar os gases-estufa da atmosfera para preservar a viabilidade do planeta.
O texto diz também que os países ainda gastam mais para subsidiar combustíveis fósseis do que para acelerar a mudança em direção a fontes de energia mais limpas.
E é verdade, segundo o texto, que a vontade política de atacar o problema das mudanças climáticas cresce em muitos países, mas a iniciativa está sendo superada pelo aumento das emissões.
O rascunho que vazou é a terceira e última parte do relatório que o IPCC está elaborando e deve ser publicado em abril, em Berlim.
A recomendação do painel é que as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono fiquem abaixo das 500 partes por milhão. Se os países permitirem que as emissões continuem a crescer até 2030, será impossível manter esse alvo --não sem um programa extremamente caro para reconstruir o sistema energético.
    Fonte: Folha, 17.01.2014.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Quase orgânicos: Em vez de terminar neste ano, permissão para o plantio de orgânicos com sementes tratadas com agrotóxicos terá prazo estendido

TATIANA FREITAS 
DE SÃO PAULO
Poucos consumidores sabem, mas a maioria dos alimentos orgânicos é produzida no Brasil com sementes convencionais que podem até receber tratamento com agrotóxicos.
E essa contradição, que tinha prazo de término no final deste mês, vai se estender por mais alguns anos.
Ontem, representantes do setor produtivo, das certificadoras e do governo, entre outros órgãos, concordaram em revogar o prazo previsto para a obrigatoriedade do uso de sementes orgânicas.
Hoje, o plantio com sementes convencionais é permitido caso o produtor comprove a indisponibilidade do insumo equivalente vindo de sistemas orgânicos. Pela legislação em vigor, essa prática seria proibida a partir de 19 de dezembro de 2013.
O problema é que a exceção virou regra, obrigando o governo a esticar esse prazo. O motivo: não existem sementes orgânicas em número suficiente para atender a todo o mercado, cujas vendas crescem em ritmo acelerado.
Segundo o coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Rogério Dias, o objetivo do adiamento é adaptar a legislação à realidade do setor no país.
"Se as certificadoras cobrassem as sementes orgânicas, o agricultor seria impedido de produzir muita coisa, ficando limitado às sementes que ele mesmo consegue multiplicar", diz Luiz Carlos Demattê Filho, diretor industrial da Korin Agroindustrial.
Não foi definida uma nova data para que o uso de sementes orgânicas seja obrigatório --o texto final deve ser publicado no "Diário Oficial" nas próximas semanas.
A tendência é que a transição ocorra gradualmente e siga diferenças regionais. A partir de 2016, cada Estado poderá produzir listas de variedades que terão de ser obrigatoriamente orgânicas.
A diversidade de solo e clima entre as regiões do país dificulta ainda mais o cumprimento da norma.
Representantes do setor afirmam que, para chegar a um número de variedades que atendam a todas as especificidades climáticas e regionais em escala comercial, será necessário pelo menos uma década de pesquisa.
FALTA DE INTERESSE
Poucos agricultores conseguem utilizar as sementes orgânicas desenvolvidas por eles próprios. "É preciso investir muito, durante anos, para obter um bom resultado", diz Sylvia Wachsner, coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos.
Alexandre Harkaly, diretor-executivo da certificadora IBD, diz que é comum encontrar falhas de germinação --importante veículo de doenças nas plantações.
Por isso, é necessário que o governo estimule pesquisas nessa área. A primeira ação com esse objetivo chegou atrasada. Apesar de a legislação prever a proibição do uso de sementes convencionais desde 2008, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico lançou a primeira chamada para projetos de pesquisa em agroecologia há dois meses.
No setor privado, ainda há pouco interesse. "As grandes empresas não investem porque o mercado é muito pequeno em comparação com o total", diz Wachsner.
O mercado de hortaliças orgânicas hoje equivale a 2% do setor, segundo Warley Marcos Nascimento, chefe da Embrapa Hortaliças.
Até na estatal a prioridade é a agricultura convencional --carro-chefe das exportações brasileiras. "Dificilmente a Embrapa, ou outra empresa, vai desenvolver uma variedade exclusivamente para o cultivo orgânico."
Na UE, é obrigatório o uso de sementes orgânicas.
Fonte: Folha, 05.12.13

Líderes do agronegócio procuram Marina: 'Quando era ministra Marina não nos recebia, mas agora foi receptiva', afirma dirigente de entidade do setor

Produtores ficaram contrariados quando ela vetou a presença de Ronaldo Caiado na coalizão de Campos
DAVID FRIEDLANDERDE SÃO PAULO
Lideranças do agronegócio decidiram quebrar o gelo e buscar uma aproximação com a ex-senadora Marina Silva, hoje a aliada mais influente do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, provável candidato do PSB à Presidência da República.
O aceno partiu dos dirigentes da SRB (Sociedade Rural Brasileira), entidade que congrega empresários de vários segmentos do agronegócio, e que sempre encarou Marina como inimiga de seus interesses. Na semana passada o presidente da entidade, Cesario Ramalho, procurou a ex-senadora durante um evento em São Paulo para um primeiro contato.
"Disse a ela que a gente precisa se aproximar, construir uma ponte entre o agronegócio e o meio ambiente", disse Ramalho: "Quando era ministra [do Meio Ambiente] Marina não nos recebia, mas agora foi receptiva. Ela precisa entender que não somos do mal, não somos devastadores de florestas".
OPÇÃO
O interesse no diálogo com Marina já existia, mas ganhou uma dimensão maior depois que ela se juntou a Eduardo Campos. Os ruralistas de São Paulo, tradicionalmente tucanos, têm mostrado simpatia pelo governador de Pernambuco.
Embora tenham se assustado com a presença de Marina ao lado dele, agora tentam estabelecer uma convivência pacífica com a ex-senadora porque acham que ela pode ajudar Campos a ser uma opção competitiva no ano que vem.
"A eleição para presidente passa pela Marina, isso não se discute", diz Ramalho. "Vamos conversar, mas não sei no que isso vai dar. Se ela tiver nossa confiança, poderá ter nosso apoio".
O grupo de Marina demonstra interesse no diálogo, mas ainda tem dúvidas quanto aos interlocutores com quem deve conversar. Politicamente, o setor rural é muito dividido, com predomínio de um grupo refratário a suas ideias, liderado pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e aliada de Dilma Rousseff.
Marina e os ruralistas divergem em vários pontos sobre a legislação que regula a preservação ambiental. Basicamente, ela acha as regras insuficientes, enquanto eles acham tudo um exagero.
Na votação do Código Florestal, aprovado em 2012, houve confronto porque ela trabalhou para que todos os desmatadores fossem obrigados a recuperar ou compensar os estragos que fizeram, mas os ruralistas conseguiram limitar o alcance da lei.
Os produtores rurais ficaram especialmente contrariados com Marina recentemente, quando ela vetou a presença do deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) no grupo de apoio à candidatura de Eduardo Campos.
O episódio forçou Campos a fazer uma peregrinação junto ao agronegócio para desfazer o mal-estar.
CAMINHO DO MEIO
"Ela tem as posições dela, nós temos as nossas. Vamos deixar o radicalismo de lado e procurar o caminho do meio", afirmou Gustavo Junqueira, conselheiro que deve assumir a presidência da SRB em 2014. O futuro dirigente, que pretende levar adiante o diálogo com a ex-senadora, acha que a tarefa é uma exigência dos novos tempos.
"O agronegócio brasileiro avançou muito nos últimos anos, e Marina, com o peso político que tem, pode nos atrapalhar ou nos ajudar muito. Ela tem reconhecimento internacional, pode abrir mercados importantes lá fora", disse Junqueira.
Fonte: Folha, 04.12.13

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Conferência do clima chega a acordo fraco: Reunião da ONU com quase 200 nações na Polônia conclui que ricos e pobres devem 'contribuir' para corte de emissões

Palavra 'compromisso' ficou de fora do documento final por divergências entre países ricos e pobres
GIULIANA MIRANDAENVIADA ESPECIAL A VARSÓVIA
Após estourar em um dia o prazo de encerramento, a 19ª conferência mundial do clima da ONU, em Varsóvia, terminou ontem com os ânimos exaltados.
A expectativa para a reunião era a definição de alguns pontos do futuro acordo internacional com metas de redução de emissões de gases-estufa, a ser assinado em 2015, na conferência do clima que será realizada em Paris.
O texto aprovado, criticado por ambientalistas por falta de ambição, tem informações básicas sobre os passos seguintes até o novo acordo mundial do clima, que deve começar a valer em 2020, em substituição ao Protocolo de Kyoto.
Um dos pontos mais significativos do texto de Varsóvia foi a menção, ainda que vaga, de uma data para a apresentação de "contribuições" para redução de emissões de gases-estufa. O documento estabelece que os países que "estiverem prontos" devem apresentar contribuições no primeiro trimestre de 2015.
O que é exatamente "estar pronto"? O texto não diz.
E o uso da palavra "contribuição" em vez de "compromisso" --troca feita após um impasse entre países ricos e em desenvolvimento-- dá margem para que se continue com a divisão de responsabilidades entre as nações, como acontece no acordo atual.
Para muitas nações em desenvolvimento, a responsabilidade pela redução de emissões deveria recair mais sobre nações ricas, levando em conta o histórico de poluição.
Os 195 países participantes concordaram também com a criação de um mecanismo para ajudar as nações mais pobres a lidarem com perdas e danos causados pelo aquecimento global.
"Avançamos em pontos importantes. O fato de termos um acerto para esses momentos que vão anteceder 2015 [a assinatura do novo acordo] é muito bom", avaliou o negociador-chefe do Brasil, José Marcondes de Carvalho.
BRASIL
A definição de regras para o financiamento da preservação de florestas, acertado na sexta-feira, foi considerada uma vitória para o Brasil. O país é um dos potenciais grandes beneficiados do acordo --só em uma negociação bilateral com a Noruega, o Brasil já tem US$ 1 bilhão acertado.
A grande proposta brasileira --que foi adotada pelos principais países em desenvolvimento (G77) e pela China--, de criação de uma metodologia para avaliar a responsabilidade de cada país para o aquecimento global, foi barrada pelas nações ricas mas, segundo os negociadores, tem chances de ressuscitar em debates futuros.
POLÊMICAS
As duas semanas de conferência tiveram protestos e surpresas. A dois dias do fim da COP, ONGs ambientalistas se retiraram do evento em protesto contra insuficiência de esforços nas negociações, em uma saída em massa sem precedentes desde que os encontros internacionais começaram, há 19 anos.
Houve ainda a greve de fome do negociador-chefe das Filipinas, para pressionar por ações concretas para ajudar os países mais atingidos pelo aquecimento global, e a demissão do presidente da COP do cargo de ministro do Meio Ambiente da Polônia.
Durante a segunda semana de conferência do clima, Varsóvia sediou também um congresso da indústria do carvão, alvo de mais protestos dos ambientalistas.

Mudanças Climáticas: Descaso ameaça produção de alimentos

ENSAIO - JUSTIN GILLIS
Para ter uma visão do que a mudança climática poderá causar ao suprimento alimentar no mundo, considere o que aconteceu na Europa em 2003, depois que uma onda de calor cortou a produção de algumas colheitas em até 30% e fez os preços dispararem.
Vários pesquisadores concluíram que a onda de calor europeia se tornou mais provável devido à mudança climática causada pelos seres humanos. Os cientistas ainda discutem sobre um período de calor e seca em 2012 nos EUA que reduziu a safra de milho. Sejam quais forem suas origens, ondas de calor como essas nos dão uma prova do que pode nos aguardar no futuro com o aquecimento global.
Entre os que estão ficando nervosos, há pessoas que passam a vida pensando de onde virá nossa comida. "Os impactos negativos da mudança climática global sobre a agricultura só deverão piorar", disse um relatório feito no início deste ano por pesquisadores da Escola de Economia de Londres e um grupo de pensadores de Washington, a Fundação para a Tecnologia da Informação e Inovação. O relatório citou a necessidade de "colheitas e sistemas de produção agrícola mais resistentes do que os que possuímos hoje no mundo".
Esse talvez seja o maior temor isolado em relação ao aquecimento global: que a mudança climática possa desestabilizar de tal modo o sistema alimentar do mundo que haja o aumento da fome ou até a penúria em massa.
O esboço de um relatório vazado da comissão do clima da ONU, conhecida como Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, sugeriu que as preocupações do grupo aumentaram e que esse relatório, marcado para lançamento em março em Yokohama, Japão, provavelmente incluirá uma firme advertência sobre os riscos ao abastecimento alimentar.
O tom é notadamente diferente do de um relatório do mesmo grupo de 2007, que discutia alguns riscos, mas via o aquecimento global como algo que provavelmente beneficiaria a agricultura em importantes regiões de plantio.
Desde então, novas pesquisas contiveram essas suposições.
Um grupo de cientistas desenvolveu maneiras mais sofisticadas de analisar a relação entre a agricultura e o clima. Seu trabalho sugere que o aumento do calor em algumas áreas de plantação já está causando uma redução da produção, e cresce a possibilidade de efeitos muito mais sérios conforme o aquecimento global continua.
Os cientistas há muito tempo esperavam que o efeito do calor e da água sobre as colheitas pudesse ser compensado pelo o que gera o aquecimento global: o aumento acentuado de dióxido de carbono no ar. Esse gás é o principal suprimento alimentar para as plantas, e um grande corpo de evidências sugeria que o aumento atual de CO2 poderia incentivar a produção das colheitas.
Mas muitas dessas evidências vieram de testes em ambientes artificiais como estufas. Cientistas mais jovens, que insistiram em testar as colheitas em condições naturais, mais parecidas com o mundo real, descobriram que o aumento da produção, embora real, não era tão grande quanto se esperava e talvez não fosse suficiente para compensar os outros estresses do aquecimento global.
O maior temor alimentar deste século ocorreu em 2007 e 2008. Vários anos de produção agrícola ineficiente, causados em parte por extremas condições climáticas, chocaram-se com a demanda crescente. Os preços dos principais cereais mais que duplicaram, países inteiros fecharam a porta das exportações alimentícias, houve pânico de compras em muitos mercados e tumultos em mais de 30 países.
A boa notícia é que a agricultura tem uma tremenda capacidade de se adaptar a novas condições, incluindo um clima mais quente. As colheitas podem ser plantadas mais cedo e novas variedades mais resistentes ao estresse climático podem ser desenvolvidas.
Mas especialistas dizem que a pesquisa necessária para fazer tudo isso acontecer está recebendo pouco estímulo. "Sucessos do passado na agricultura deram uma falsa sensação de segurança a muitos dos que estão em cargos de decisão", disse L. Val Giddings, membro adjunto do grupo de pensadores de Washington e coautor de seu relatório. "Faz muito tempo desde que algum deles realmente sentiu fome."
Fonte: NYT, 26.11.13.